terça-feira, 16 de janeiro de 2018

De nascer e morrer


“A vida é isto: rasgar-se e remendar-se.” – Guimarães Rosa

No mesmo dia em que recebo, tristemente, como amante de música, a notícia do falecimento de Dolores O´Riordan também recebe a notícia do nascimento de mais um sobrinho-neto, no caso uma sobrinha-neta, a Marina, filha de meu sobrinho Rafael e da esposa dele, a Larissa.
Gosto de pensar nos ensinamentos que a vida nos traz através de suas metáforas e de seus milagres, pois como já dizia Manoel Bandeira, a morte é o fim de todos os milagres. Para os hindus estamos presos à roda da Samsara, que é o ciclo de nascimentos e mortes, até o dia que mereçamos não mais encarnar, para outras culturas e religiões, nascer e morrer faz parte de um processo longo de evolução de nossa alma, para os católicos, como eu, as boas almas alcançam ou voltam para a casa do Pai.
Independente de ser religioso ou não, ou de sua religião, há dois fatos que são irremediavelmente significativos para nós e sobre os quais não temos nenhum controle: nosso nascimento e nossa morte, como já bem disseram muitos sábios, o que fazemos entre esses fatos é problema nosso.
Pensar na morte, por mais que nos incomode, é uma questão filosófica que acomete o ser humano há milênios. Em nossa cultura ocidental, poucas são as pessoas que são ensinadas a lidar com a morte. Temos medo, temos angústias, temos desespero. Falamos pouco ou não falamos sobre isso. É comum, quando o assunto surge, surgir, também, alguém que diz: “vamos mudar de assunto, assunto brabo esse, hein?”. Fato é que essa é uma certeza que todos temos, um dia chegará nosso momento. Para alguns será cedo demais, como foi para Dolores, dona de uma voz belíssima que encantou minha geração, para outros demorará um cadinho mais, dando mais tempo de aprender e ensinar, como para tantas e tantas pessoas que estão por aí. Ninguém sabe. Não viemos ao mundo sabendo nosso tempo de duração. Não há em nossos registros, “válido até tal data”, por isso devemos cuidar muito bem do que fazemos, por isso devemos pensar muito bem no que fazemos, no legado que, realmente, estamos deixando. A vida é frágil como a Marina recém-nascida, é única, especial, intransferível. Nem todos poderão deixar belas músicas como Dolores para que se lembrem de nós, mas podemos deixar muitas atitudes, lembranças, palavras, abraços, carinhos para aqueles que nos são próximos ou mesmo para aqueles que nem conhecemos, mas para quem fizemos algo de bom em uma tarde perdida, em uma manhã de chuva ou em uma noite sofrida.
Viver é ser generoso, consigo e com o outro. Viver é se jogar aos mistérios, é ir ao encontro de quem também vive, muitas vezes é dar trancos, é cair nos barrancos, é se machucar, mas quando penso no sorriso de um bebê que veio ao mundo, que é a mais sincera e bela expressão da pureza, de como temos a capacidade da felicidade ao toque suave de alguém, penso que Deus continua acreditando em nós e enviando anjos para que façamos deste mundo um lugar melhor para se viver e para acolher essas criaturinhas que nos chegam sorrindo e bendizendo a vida.
Se a morte é inevitável que a vida seja a cada dia um milagre de renascimento e ressurreição como se fôssemos eternos bebês a se maravilharem com a magia de viver.

Give me the horizon

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Somos cães abandonados


“Tudo que você acredita é do jeito que realmente é?” – Evandro Aléssio
Quando estive em Montevidéu, em lua de mel, ficamos em um aconchegante hotel no bairro de Pocitos. Em uma noite que saímos para tomar vinho e jantar, voltávamos abraçados e encolhidos com o frio gostoso do inverno uruguaio quando começamos a ser acompanhados por um cão sem raça definida, bem grande, ele abanava o rabo e nos seguia, um cão de rua, simpático, querendo também um lugar quente para dormir.
Quando chegamos à frente do hotel ele se deitou no tapete do saguão, como que dizendo, aqui está bom, está quentinho, ficarei por aqui, obrigado por me guiarem.
Quantas e quantas vezes não agimos como um cão abandonado, sem rumo, pedindo apenas um lugar quente para deitarmos, para nos acomodarmos, pedindo um colo que nos acolha. Quantas e quantas pessoas ficam vagando nas ruas e no mundo feito cães abandonados, pedindo apenas atenção, acolhimento, um abraço, uma palavra de carinho?
Vivemos tempos de intensa comunicação, de redes sociais, porém continuamos como cães abandonados em busca de alguém que nos acolha, pois se o mundo vive conectado o tempo todo também vive separado o tempo todo, sem contato afetivo e efetivo, sem cuidado, sem carinho. Passamos por dezenas de pessoas diariamente e as ignoramos, vemos o sofrimento de muitos e os ignoramos, sempre com a mesma desculpa: eu não posso fazer nada, isso é problema do governo, da igreja, de um terapeuta...nos livramos do peso, da responsabilidade pelo outro que, muitas vezes, só precisa, como um cão abandonado, de um pouco de atenção, de uma passada de mão na cabeça, de algo quente para o acolher, como um abraço.
Quase todos os dias penso naquele cachorro. Mais do que ter ficado tentado a levá-lo para o quarto do hotel, vejo nele uma metáfora para o abandono de cada ser humano nas diversas partes do mundo, mas principalmente, nas proximidades do mundo de cada um: rua, bairro, cidade...se abandonamos irmãos nossos necessitados a própria sorte, o que dizer de animais como cachorros e gatos, que nos orgulhamos de termos domesticado? Ambos: humanos e animais, compartilham da mesma dor, do mesmo sentimento de serem invisíveis para a sociedade, de serem dignos de pena, mas jamais de acolhimento e ajuda. Aquele perro de Montevidéu me acompanhará sempre no coração, até que eu não tenha mais forças para lutar por um mundo melhor para todos.

Give me the horizon


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Despedida


Despedida
Foi se despedir
de seu velho amigo
mar
que banhou seus sonhos
e levou suas dores
amigo que o viu crescer
e se expandir para o mundo
que limpou suas lágrimas
e lavou suas feridas
Foi se despedir
de seu velho amigo
mar
mais uma vez
como tantas outras vezes
que se encontraram
despediu-se com silêncio
e respeito
despediu-se com carinho
e cuidado
lembrando-se das tantas vezes
que se abraçaram
e riram
e se divertiram
Foi se despedir
de seu velho amigo
mar
que lhe ensinou sobre
o vai e vem das ondas do amor
e lhe mostrou que amar
é surfar de mansinho
mesmo em grandes vagalhões
Foi se depsedir
de seu velho amigo
mar
mas o mar não se despediu dele
pois apesar de não saber
o mar nunca o deixa.
São Vicente 05.01.2018

A dor do traidor


A dor do traidor
O que é a dor?
A dor é um traidor
que se cala ante o
que deveria ser seu cuidado
é um egoísta que,
resolvido seu problema,
segue com a vida,
é o insensível
ante o sofrimento e a necessidade
é a falta de beleza
e empatia
é a garra que rasga
o coração
dilacerando toda a compaixão
A dor é o que sinto
ao pensar em ti,
Simba, meu companheiro
que abandonei
deixei partir
e que terei
sempre a me ferir
com a culpa
e a saudade
São Vicente 03.01.2018

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Por um 2018 de amor e esperança


“Todos nós devemos fazer um pacto radical com a esperança.” – Dom Pedro Casaldáliga

Mais um ano chegando ao fim, inevitável pensar, refletir, avaliar como foi o ano que termina. Todo ano é assim para a maioria das pessoas, não sou um pensador solitário, nem ao menos o último a praticar esta avaliação.
Olhando para trás foi um ano longo, ainda que a sensação de passar rápido seja presente, foi um ano de muitos acontecimentos, pessoais ou não.
Ao longo deste ano vi muitas coisas ruins acontecerem no Brasil e fora dele, vi muito sofrimento, muita dor, muita tristeza, mas também vi coisas lindas, vi pessoas fazendo o bem, vi pessoas nascendo, transformando-se, recriando-se. Viver é a arte de se recriar, de se reinventar, talvez seja por isso que coloquemos tanta fé em viradas de ano, que façamos tantas avaliações do que aconteceu e tantas promessas para o ano que entrará.
O ano que passou me deixa imensas lições e lembranças queridas, não que não tenha sido um ano de acontecimentos pesados, de erros, de pequenos acontecimentos que trouxeram um bocadinho de chateação, mas a parte positiva tem sempre, ou deveria ter, mais peso, afinal, 2017 foi o ano do meu casamento, o ano em que finalmente conheci o Uruguai, em uma linda lua de mel, foi um ano de muito aprendizado, da retomada de antigas paixões como a Teologia da Libertação e um aprofundamento muito sério na religiosidade, foi também um ano de sorrisos, de alegrias, de muita celebração com os amigos, de muitas ideias e novidades. É bem verdade que termina com um gosto amargo de separação de meu querido Simba, mas também abre para o novo ano que vem cheio de esperança, novas ideias e projetos que, com as bênçãos de Deus, o apoio de minha amada e muito coração, tornar-se-ão realidade.
Muitos são os críticos que dizem que é uma bobagem fazermos isso, que, no final das contas, o ano é apenas uma convenção humana e do dia 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro, absolutamente nada muda. Não sou desses.
Acredito que temos essa capacidade inesgotável de nos renovar, de continuar acreditando, de renascer das cinzas das dores e nos fortalecer, acredito que temos essa capacidade linda de recriar nossa realidade e fazer com que nossa aprendizagem gere frutos no ano seguinte. Sim, é um ritual, mas a vida é feita de rituais, é feita de nascimento e morte. Morremos todas as noites e nascemos todas as manhãs, morremos no ano que termina e nascemos no ano que se inicia, acreditar nisso chama-se fé, é acreditar em algo que não pode e não precisa ser provado, pois é a fé que nos move, seja a fé em Deus ou na humanidade, seja a fé na ciência, em si mesmo ou em alguém próximo, a fé nos move, nos faz ter vontade de viver e de realizar coisas novas. Por mais que seja dolorido algum momento é saber que isto também passa e que às vezes somos incapazes de ver o milagre que está acontecendo por nossa incapacidade de entender coisas que estão além do comum, da sensatez chata que nos prende a um universo sem encantamento.
Ainda que a realidade não seja nada fácil é preciso acreditar, é preciso ter fé, é preciso ter esperança, foi isso que a criança que nasceu e morreu por nós veio ensinar, é preciso ter esperança e amor, por mais dolorida que a vida seja.
Feliz 2018 a todos e que no novo ano encontremos nosso novo horizonte...


Give me the horizon

Perdão


Se podes perdoar
perdoa
Se não podes
perdoa também
O perdão é dom do coração
e teu coração não é teu
é de Deus
Não, não negue
ainda que seja ateu
faze o bem
como quem ama a criação
e tende compaixão
tende empatia
e não terás porque se arrepender
porque Deus sempre acredita em nós
mesmo quando não O ouvimos
mesmo quando não Lhe damos atenção
mesmo quando desistimos d'Ele
Ele não desiste de nós
Então, ainda que não creias n'Ele
faze o bem
pois Ele acredita que somos bons
que somos Seus tons
mais belos
colorindo a imensidão
do tempo e do espaço
faze com mansidão
e com clemência
Então sentirás
a tua crença surgir
não por imposição
mas pela ação
pela prática intensa
da caridade
faze o bem
faze com sinceridade
e alegrarás a Deus
descobrirás, finalmente, o caminho
e, com carinho
sentirás
o calor
e saberás em teu íntimo
que Ele é o Criador
Nosso Senhor
e Pai de amor

Oração pelo excluídos


Como posso eu, ficar em silêncio
diante da miséria das pessoas
diante do sofrimento
diante da dor?
Como posso eu, calar ante o temor
dos fracos e desfavorecidos?
Ante a injustiça
a injúria
a violência
contra aqueles que são oprimidos
contra aqueles que são excluídos
por serem diferentes
das coisas que acreditam
outras pessoas?
Como posso eu ignorar
quem tem sede,
quem tem fome
que não tem terra
para plantar?
Como posso,olhar tudo isso
e não agir?
Ver e fingir que nada sei?
Ouvir e silenciar?
Como posso ver pessoas
fugindo da guerra
e nada sentir?
Eu desejo a todos os que sofrem
que sejam acolhidos
acalentados
consolados
abraçados
e que tenham suas necessidades
saciadas
E desejo
que minha amada
e todas as mulheres
que assim desejarem
fiquem grávidas
pois possuem o maravilhoso
privilégio
de gerar vida
e tenho a esperança
que essas mulheres
gerem mais gentes para o mundo
que lutem
pelo que não têm voz
não apenas nós
eu e aquela com quem sou
mas todas e todos
que sentem
que se afligem
que entendem
que querem
melhorar não o seu lugar
mas dos quesofrem
Assim eu peço
e sinto
de alma
e coração