quarta-feira, 18 de julho de 2018

Oração a São Francisco de Assis


Há 790 anos Francisco de Assis era canonizado. Reproduzo aqui o poema feito por Dom Pedro Casaldáliga
Compadre Francisco
como vais de glória?
E a comadre Clara
e a irmandade toda?
Nós, aqui na Terra,
vamos mal vivendo,
que a cobiça é grande
e o amor pequeno.
O Amor divino
é mui pouco amado
e é flor de uma noite
o amor humano.
Metade do mundo
definha de fome
e a outra metade
de medo da morte.
A sábia loucura
do santo Evangelho
tem poucos alunos
que a levem a sério.
Senhora Pobreza,
perfeita alegria,
andam mais nos livros
que nas nossas vidas.
Há muitos caminhos
que levam a Roma;
Belém e o Calvário
saíram de rota.
Nossa Madre Igreja
melhorou de modo,
mas tem muita cúria
e carisma pouco.
Frades e conventos
criaram vergonha,
mas é mais no jeito
que por via nova.
Muitos tecnocratas
e poucos poetas.
Muitos doutrinários
e menos profetas.
Armas e aparelhos
trustes e escritórios,
planejam a história,
manejam os povos.
A mãe natureza
chora, poluída
no ar e nas águas,
nos céus e nas minas.
Pássaros e flores
morrem de amargura,
e os lobos do espanto
ganharam as ruas.
Murchou o estandarte
da antiga arrogância.
são de ódio e lucro
as nossas cruzadas.
Sucedem-se as guerras
e os tratados sobram;
sangue por petróleo
os impérios trocam.
O mundo é tão velho
que, para ser novo,
compadre Francisco,
só fazendo outro...
Quando Jesus Cristo
e Nossa Senhora
venham dar um jeito
nesta terra nossa,
compadre Francisco,
tu faz uma força,
e a comadre Clara
e a irmandade toda.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A magia dos dias



“Ele era um menino, valente e caprino, um pequeno infante, sadio e grimpante, anos tinha dez e asas nos pés.” – Vinicius de Moraes

Acabou-se a Copa, paixão de dez entre dez amantes do futebol, dama difícil, só aparece de quatro em quatro anos. Dama encantadora que seduz desde a mais tenra idade e faz de muitos escravos eternos dos seus prazeres.
Acabou-se a copa e eu ainda estou devendo um texto para mim e para um jovem, bem jovem. Devo este texto a ele, pois me encantou sua postura, menino que é, encantou-me sua paixão, seu jeito de torcer e sofrer. Víamos o jogo juntos, a seleção brasileira de futebol encarava a seleção da Costa Rica e o jogo era muito duro, víamos o jogo junto a dezenas de outras tantas pessoas, de outros tantos meninos que, como ele, torciam e sofriam com o jogo, pulavam exageradamente diante de uma possibilidade de gol e gritavam ensurdecedoramente diante da possibilidade, pouca é verdade, de gol do adversário.
Ele estava lá, entre tantos outros meninos, alegre, pulando de lá para cá, brigando com o telão e urrando diante da possibilidade de vitória. Em algum momento do jogo perdi-me, eu não estava mais onde estava, transportei-me no tempo e não via mais aquele menino, ou melhor, aquele menino era eu. Vi-me nele. Acocorado, torcendo e rezando por homens que nem imaginam quem ele seja. O mundo é simples nesse momento, uma batalha de nós contra eles, uma batalha sem mortos, feridos, sem dor lancinante, sem destruição, uma batalha da qual nos recuperamos instantes depois dela acabar.
Lá está ele/eu. Olhos grudados que se recusam a piscar sob a pena de perder algum lance fatídico, olhos marejados não se sabe bem se de alegria, nervoso ou tristeza antecipada, naquele momento só o que interessa é a bola rolando naquele gramado, sendo disputada por vinte e dois homens que tentam seduzi-la a ponto dela ceder e entrar no gol do adversário, naquele momento estamos esquecidos das provas, das notas, dos problemas, da menina por quem somos apaixonados e não nos dá bola, da bronca do pai, das exigências da mãe, das chatices dos irmãos mais velhos, do tédio de ver o mundo pelo olhar dos adultos. Somos apenas nós, nossa torcida e nossos sonhos, nossa imaginação trabalhando na velocidade da luz, não somos mais, apenas, torcedores, estamos lá dentro, jogando junto, participando, colocamo-nos à disposição do treinador, somos o treinador, fazemos jogadas perfeitas que resultam sempre em lances perigosos e, se tudo correr bem, no gol consagrador.
Temos o tempo encantador do final da infância e começo da adolescência, temos o tempo encantador em que tudo é mágico, em que tudo é possível, temos...tempo...
De repente o gol, aquele gol tão esperado, tão aguardado, saímos do transe, entramos no êxtase, o menino que fui sumiu, o menino que ele é, continua ali, pulando, gritando, de repente outro gol, não resiste e vou até ele, pego-o no colo, levanto-o e o sacudo gritando e comemorando, ele sorri, grita e comemora, abraça-me rápido e sai correndo, vivendo seu momento mágico.
Não sabíamos que, alguns dias depois, a seleção seria eliminada, porém, isso pouco importa. Aquele menino acocorado me fez lembrar a beleza de uma época em que nossos monstros são o time adversário, uma nota baixa, que nossas decepções se resumem a coisas pequenas que, passados os anos, nos farão chorar de saudade. Terei saudade desse dia em que me vi, em que aquele menino mostrou-me, novamente, a magia de viver, de sonhar acordado, de se alegrar pelo simples.
Tirei uma foto sua, acocorado, mas não posso publicar, não tenho autorização dos pais Enem preciso, ela ficará guardada para sempre no lugar que mais importa, meu coração, ela ficará como a figurinha mais importante do álbum da copa de 2018, a figurinha que me lembrou que o mundo pode ser belo, mágico, encantador, entusiasmante, depende apenas do nosso jeito de olhar para ele e navegá-lo como se fosse sempre a primeira vez...

Give me the horizon

Ladrões do sonhos


O mundo está chato, amigo
querem roubar nossa alegria
tirar nossa poesia
Já levaram um tanto
deixaram o pranto
roubaram até a cor
do fundo de minha alma
Sobra um tom de rancor
aquela indignação
que sai de dias de silêncio
e afasta os cinza-chatos
Não é um vão momento
quero gritar
o tal sentimento
unir o direito
a sermos quem somos
com respeito
de quem são todos
não corte os pulsos, amigo
o perigo não é morrer
o perigo
é não viver...
BH 15.06.2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

O que foi não volta a ser*




“Ó mar salgado, quanto de teu sal, são lágrimas de Portugal?” – Fernando Pessoa

Há exatos 20 anos eu desembarcava pela primeira vez em Portugal. Era então um infante besta de 27 anos que viu surgir diante de si um mundo, um universo desconhecido e maravilhoso. Lembro-me bem de tudo que vi, vivi, fiz, fotografei. Gostaria de compartilhar todas as fotos, mas naquela época ainda eram fotos impressas e poucas foram digitalizadas.
Há 20 anos também, tenho o prazer de ter como amigos, ainda que nos vejamos pouco, a família Encarnação, na casa de quem fiquei hospedado nas duas vezes que estive em terras lusas.
Em Portugal abriu-se para mim o mistério da vida e a vontade de, sempre que possível, conhecer novos lugares, novas culturas, novas gentes. Que país fascinante, que língua tocante. O ano de 1998 é marcante. Cheguei dias antes da grande final da Copa da França, de triste lembrança para os brasileiros, mas isso pouco importou para quem começava a descobrir um país maravilhoso. Tenho um amor especial por Lisboa, cidade cheia de lugares fabulosos, histórias maravilhosas, também tenho amor infinito pelas pequenas vilas e estradas secundárias na qual eu e minha amiga, irmã e eterna madrinha, Rosária, descobrimos sítios maravilhosos, inclusive uma plantação de girassol que nos rendeu fotos e histórias divertidas (e muitos espinhos grudados nas minhas meias). As free ways são legais, excelentes estradas que fazem você chegar rápido a qualquer lugar, mas experimente ir ou vir do norte ou do sul para Lisboa pelas estradas secundárias, descobrirá lugares pelos quais você não passaria, descobrirá pessoas que não conheceria e Portugal vale muito por sua gente, hospitaleira e simpática, acolhedora e cheia de história, Portugal é sua gente!
Muitos lugares se confundem passados 20 anos, lembro bem de nossas visitas à Expo 98, a última do século, como era chamada, que tratava dos Oceanos. Triste ver que a poluição dos oceanos continua um problema passadas duas décadas. Lembro das longas caminhadas por ruas, ruelas, vias, ladeiras, museus, castelos, o Algarve, sempre um lugar especial em meu coração, com suas praias de águas geladas e gente simpática e feliz, lembro das pequenas cidades, das grandes cidades, da Serra da Estrela de queijos e cão maravilhosos, lembro das noites à mesa da família Encarnação, de altos papos e muitas risadas, lembro sobretudo de ter conhecido um país pulsante que ressurgia para o cenário mundial, lembro de sonhos e projetos que não se realizaram e de coisas maravilhosas que aconteceram depois. Lembro de ter conhecido o maravilhoso Rock’n’Roll do Xutos e Pontapés e ter me aberto para a world music.
Lembro com carinho das pessoas, dos lugares, dos passeios, da inigualável comida. Hoje sou uma pessoa bem diferente de quem eu era aos 27 anos, aprendi muito com a vida, com minha cabeçadas e erros, que valorizo muito, pois me fizeram ser quem eu sou hoje. Uma das coisas que não mudou são minhas boas lembranças desse Portugal que conheci e depois revi em 2004, e que, de muitas maneiras, contribuiu para eu ser quem sou hoje. Hoje, 20 anos depois, ainda ecoam os versos de Pessoa: “Quem quer passar o Bojador, tem que passar além da dor.” Naveguemos pois!

Give me the horizon
*Título de uma das letras mais lindas do Xutos & Pontapés que tomo a liberdade de usar como título para esta crônica.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Empatia


Não sei se sou eu
ou sou outro
que interpreto
talvez alguém que sofreu
ou se feriu
na alma
talvez alguém que partiu
de algum lugar
fugindo
(de si?)
Sou todos, sou o outro
sou eu que sinto
sou raça humana
cada elemento
cada ser
Aquele que sofre, sou eu
aquele que chora, sou eu
sou no apartheid
sou eu no gueto
sou em no campo de extermínio
sou eu refugiado
sou eu encurralado
sou eu segregado
sou eu sofrido
corrompido
alquebrado
discriminado
marginalizado
ofendido
cheio de dor
e medo
sou a mulher violentada
a criança desorientada
o homossexual agredido
o ser desvalido
e assim
sendo todos
descubro
que sou irmão
e sinto a dor
dos que não são
como eu
mas que são...eu!

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A alma dói



Hoje ganhei uma folga, na verdade, dois dias de folga antes do feriado. Deveria estar feliz, folga são sempre bem-vindas e, como professor, são raras. Mas não estou feliz, nem satisfeito. Estou triste. Minha folga é gerada pela greve dos caminhoneiros, justa e legítima, que desabasteceu postos de combustíveis por todo o país. Apoio os caminhoneiros, apoio todos os trabalhadores injustiçados e explorados deste país, mas não posso deixar de estar triste com o que estão fazendo com nosso país. Estou triste por ver, como diria Cazuza, os inimigos no poder, estou triste por ver tanto conservadorismo ofensivo e agressivo, estou triste por ver pessoas da minha geração ostentando seu ódio, estou triste por ver jovens perdidos, sem perspectiva ou sem interesse, fechados em seu mundinho, estou triste por ver a educação desse país sendo sucateada e vendida aos grandes conglomerados educacionais, estou triste por ver que quem luta pelos pobres e excluídos é visto como comunista, estou triste por ver pessoas que fazem caridade apenas para colocar sua cabeça no travesseiro e dormir bem, mas que não possuem empatia alguma com os que sofrem, estou triste, profundamente triste por ver um país e um povo sendo destruído, sendo escravizado e gostando disso. Vejo pessoas se acostumando com tudo que acontece e isso me dói! Luto por um mundo melhor para todos, onde possamos ser irmãos, onde realmente possamos viver em harmonia, onde haja espaço para todos serem felizes, luto para que todos tenham seu lugar ao sol, que tratem as pessoas com empatia, sem indiferença, com amor e acolhimento, mas isto não é bem visto na atualidade e me dói...dói ver o sofrimento das pessoas, dói ver a desesperança, dói ver os sonhos sendo colocados de lado, trocados pela mesquinhez do individualismo, do cada um por si, dói ver a dor do outro e nada poder fazer, dói lutar pela educação e ser visto como subversivo, por isso estou triste. Mesmo sabendo que estou ao lado de pessoas que me inspiram e que foram perseguidas ou perderam a vida lutando por um mundo mais justo como Dom Oscar Romero, Madre Teresa de Calcutá, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Chico Mendes, Dorothy Stang, Pe Rutilio Grande, Padre João Bosco Burnier, Marielle Franco e outros tantos que não conseguirei mencionar aqui, me consola e me conforta saber que eles também foram incompreendidos, acusados de serem coisas que não eram, por isso me dói tanto saber que meu país, que tanto amo, está nas mãos de gente indiferente, de gente que só quer o poder pelo poder, que não quer servir e ajudar o povo e ver a educação, pela qual tanto luto, estar sendo destruída e tomando rumos que nos levarão a ter várias gerações de autômatos, rasga-me por dentro.
Não tenho um final bonito, para este texto, mas a esperança, essa nunca me abandona, sou nas palavras do grande Ariano Suassuna, um realista esperançoso, que continuará lutando, mas hoje, permito-me estes dez, quinze minutos de profunda tristeza que, quem sabe em algum momento, vire novamente a alegria de ver as coisas mudando, pois a fé e a esperança nunca me abandonarão!

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Poema



Fazer poemas
É desnudar a alma
A poesia é como a amada
Quer ser acarinhada
Cuidada
Encantada
Não sou poeta porque quis
Sou poeta porque fiz
Um acordo com Deus
Servi-Lo até não restar mais giz
E assim me tornei aprendiz
De poetação
Pois escrever poemas
É minha forma de devoção
É minha oração
Não faço poemas pela fama
Nem pela grana
Quem faz poemas
Não fica rico
Não fica famoso
Mas encontra o caminho único
De conversar com a magia
E tomar uma boa dose de alegria
A cada dia